
[O mundo foi feito] "do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos."
A principal obra de Carlo Ginzburg (historiador italiano), datada de 1976, narra o cotidiano, a vida e o julgamento inquisitorial de um moleiro de Montereale, zona italiana do Friuli. Domenico Scandella, conhecido por Menocchio foi perseguido pela Inquisição por disseminar suas idéias heréticas ao povo de sua aldeia. A obra situa-se no século XVI, numa era marcada pela Reforma Protestante e a difusão da imprensa, na Europa pré-industrial. Ginzburg faz um estudo da história cultural e das mentalidades, numa prática de micro-história, que revela as classes subalternas e acaba desenrolando numa hipótese geral sobre a cultura popular, na qual o autor trata da influência mútua entre as culturas popular e erudita. Esse livro é o melhor livro de história que já li, pois, além de discutir um tema instigante o autor consegue fazer uma narrativa envolvente e, ao mesmo tempo, construir o perfil da personagem abordando suas principais idéias, sem encher o leitor de informações que cortaria o fio narrativo e atrapalharia o entendimento.
A personagem resgatada nos processos inquisitoriais é um camponês tão pouco comum. Moleiro de profissão e respeitado na comunidade, autodidata, alfabetizado, tinha uma vida normal como cidadão de Montereale, dedicado à suas atividades de sustento e a família, até ser chamado ao Tribunal do Santo Ofício. Ele foi acusado de herege por disseminar principalmente sua singularíssima cosmologia:
“Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito do leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos, e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela mesma massa, naquele mesmo momento, e foi feito com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael." (p.40)
Além desta idéia ele disseminava: a equivalência de todas as fés; a descrença na virgindade de Maria, assim como na crucificação de Cristo, na adoração de imagens, nos Evangelhos, e no inferno. Também denunciava a riqueza da Igreja e o uso do latim, dizia que os sacramentos eram apenas “mercadorias”.
Mas não terá sido influenciado por leituras ou correntes teóricas, onde construiu suas idéias sobre os dogmas religiosos e a criação do mundo?
O livro discorre sobre possibilidades de como teria o moleiro, formulado tais idéias. Primeiro o autor compara-o aos grupos heterodoxos: luteranos e anabatistas. Logo percebe que há algumas semelhanças, mas que é improvável a cumplicidade de Menocchio com esses grupos, pois ele ignorava Justificação e Predestinação – temas centrais da Reforma. Depois deduz que essas crenças tivessem num veio de profundo radicalismo camponês, trazido à tona pela Reforma (mas independente dela), o que é contradita pela lista de leituras que o autor reconstruiu com base nos documentos processuais. E por fim, faz uma minuciosa análise nos livros que o próprio acusado confessou ter lido levando em conta não as páginas lidas, mas como era feita essa leitura – a fonte seria menos importante do que a rede interpretativa pensada pelo camponês.
Para Ginzburg, a leitura de Menocchio era parcial e arbitrária, quase uma procura de confirmação de suas idéias. Em um texto, por exemplo, um detalhe acabava se tornando o centro do discurso, alterando assim todo o seu sentido – deformava agressivamente (involuntariamente) os textos. Entretanto “não reproduzia simplesmente opiniões e teses de outros. Seu modo de lidar com os livros, suas afirmações deformadas e trabalhosas são sem dúvidas sinais de uma reelaboração original.” (p. 114). E conclui que as raízes dele eram mais profundas do que os próprios textos. Juntou assim correntes cultas e populares em um novo e confuso pensamento teológico. “Foi o choque entre a página impressa e a cultura oral, da qual era depositário, que induziu Menocchio a formular – para si mesmo em primeiro lugar, depois aos seus concidadãos e, por fim aos juízes – as ‘opiniões [...] [que] saíram da sua própria cabeça’.” (GINZBURG, 1987: 89)
Menocchiono, em 1584, foi condenado a passar o resto da sua vida na prisão. Depois de dois anos sua pena foi amenizada: ele voltou a Montereale, mas não podia sair de lá e deveria usar um hábito com uma cruz. Contudo, manteve sua posição e continuou a pregar as suas idéias heréticas, o que acabou estimulando um segundo julgamento em 1598. E foi condenado, torturado e morto na fogueira.
Como o próprio autor questiona: “Até que ponto poderemos considerar representativa uma figura tão pouco comum, um moleiro do século XVI que sabia ler e escrever?” (p. 88). Devemos pensar Menocchio, não como sendo um camponês típico, mas sim um personagem singular e não representativo, respeitando sua originalidade e percebendo dentro de seus discursos um estrato cultural profundo, emergido tanto da cultura escrita como da cultura oral.
Carlo Ginzburg traz uma grande contribuição historiográfica com esta obra. Primeiro por que seu trabalho mostra que a historiografia não se resume apenas à elite -- que produziu documentos escritos -- ou que a massa camponesa não era capaz de formular raciocínios a cerca de temas que eram considerados o estudo apenas de letrados. Também abre uma discussão sobre a relação entre as culturas popular e erudita, recusando a tese – insustentável – segundo a qual, as idéias nascem exclusivamente no âmbito das classes dominantes. E isso implica numa hipótese complexa sobre circularidade das culturas, que nos permite perceber a importância da tradição oral. E por último, porque ele foi o precursor da micro-história.
Enfim, tal estudo é extraordinário para tomarmos conhecimento do cotidiano e parte dos pensamentos de uma vítima da Inquisição, que poderia ter passado em branco para a história, se não fosse o olhar atento de Ginzburg sobre os documentos processuais. Por isso recomendo esse livro não só para estudantes de história ou especialistas, mas para todos os públicos que se interessam pelo tema.
Boa leitura e até a próxima!
Por Vilane Vilas Boas Rios
Bibliografia:
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.